Jalapão de Bicicleta : Mateiros – Fervedouro do Firmeza – Mumbuca

(FOR ENGLISH VERSION, SCROLL DOWN THE PAGE)

Sabia que, em algum ponto da estrada principal de cascalho que saía de Mateiros e rumava para noroeste, deveria ter uma entrada à esquerda para ir até Mumbuca. Deveria ser em torno do km 30. Mas, como o odômetro (aquele aparelinho que marca os km rodados na bicicleta) não estava funcionando, entrei muito antes e rodei uns 4km até suspeitar que talvez tivesse entrado errado. Não havia placas sinalizando mas havia marcas de pneu na areia e pela direção da estradinha, achei que fosse o lugar. Parei e decidi esperar passar alguem para perguntar ao invés de voltar logo até a estrada principal. Mas como estava num deserto humano esperei mais de uma hora e ninguém passou. Até que desisti. Melhor seria então voltar até a principal e achar alguém pra perguntar. Segundo informaram ainda faltavam dezenas de km até a entrada de Mumbuca, que estaria sinalizada.

Choupana no Jalapão / Kind of shanty of Jalapão

Choupana no Jalapão / Kind of shanty of Jalapão

No meio do caminho, desisti de pegar a estradinha de areia que levava ao Fervedouro dos Buritis (a placa indica 7km da estrada principal mas segundo informações, são 10km). Achei melhor ir até a a entrada para Mumbuca onde, segundo o mapa , havia um outro fervedouro. Consegui uma carona por uns 10km – ainda era muito dificil pedalar na areia fofa misturada com cascalho. Era um médico estava indo atender um paciente atravessando os areiais de caminhonete. Quando ele saiu da estrada principal eu desci e continuei por ela e, depois de umas horas, cheguei na placa que indicava claramente que havia chegado a hora de, agora sim, virar à esquerda. Mumbuca estava a 10km.
Logo no inicio desta estrada secundária está o maior e mais famoso fervedouro do Jalapão: Fervedouro do Firmeza, do meu amigo Ceiça. Já eram 17h e cruzei com ele na estrada. Havia acabado de deixar seu posto. Me cobrou a entrada (R$ 10) e disse que podia ficar à vontade. Algumas centenas de metros á frente encontrei a porteira de entrada.

Fervedouro do Firmeza

Fervedouro do Firmeza

Ceiça me contou, no dia seguinte, que seus bisavós, escravos, vieram do Piauí fugindo dos senhores de escravos e da “seca de 10 anos sem chover”. Ficaram encantados com o Jalapão e sua maior riqueza: as águas. Decidiram ficar por ali.
Chegaram bravos então saqueavam as fazendas matando os animais pra comer mas depois o Jalapão os “amansou”. Por ironia do destino, o fervedouro, com tanta água em abundância, foi uma dádiva herdada nas terras dos seus antepassados, que um dia tanto sofreram com a seca. Os fervedouros da região, até bem pouco tempo (10 anos no máximo), ficavam escondidos no mato. Sabiam que eles existiam mas não davam importância e nem havia interesse para exploração turística.

A mata que, segue o curso do rio na parte mais baixa do terreno onde está o fervedouro, é mais alta e densa. Uma espécie de oásis.
Não sei exatamente porque mas, nesta minha segunda noite não senti picadas de muriçocas. Talvez já estivesse sendo considerado um local por elas :-). Aliás, os mosquitos são uma pequena dificuldade na região. Existem vários tipos: Muriçocas, mosquitos, pernilongos e até uma mosca picadora que não te larga nem quando você tenta afastá-la com um tapa. Os repelentes são ineficazes. E, por experiencia própria, o fogo e a fumaça também. Uma boa técnica, sabendo que eles atacam principalmente entre 5 e 7h da manhã e entre 5 e 7 h da noite, é manter-se na barraca neste período. 🙂

Tive a sorte de chegar ao Fervedouro do Firmeza, o melhor da região, no final do dia. Não tinha ninguém e pude relaxar e aproveitar bastante.

Os fervedouros são nascentes rasas de água que afloram nas areias da região. Os grãos de areia, de tanto serem “trabalhados” pela água, vão ficando cada vez mais finos. Aliado a isso, presença constante do jato de água submerso de água diminui a rigidez do areial. Esta falta de “solidez” (ou melhor, baixa viscosidade) faz com que, ao ser tocada a areia se desmanche. Facilita também a ação da água, que flui entre os grãos, ao subir com pressão. A água, que nasce a poucos metros da superfície com pressão borbulha a areia pra cima e nos mantém flutuando. É um fenomeno parecido com a areia movediça mas, neste ultimo caso, não existe o fluxo constante de água de baixo pra cima.

Acabei dormindo por lá mesmo, na rede que fica na choupana. Banhos noturnos e comida quente completaram a felicidade total !!

No dia seguinte acordei cedo e logo depois Ceiça chegava ao seu posto. Troquei algumas ideias com ele que me deu , generosamente, seu isqueiro já que meus fósforos haviam molhado na viagem. Agora já tinha como acender o fogo no resto da viagem. Ele me disse que tinha que ir pagar uma conta na cidade. Fiquei pensando: “Nem no Jalapão estamos livres delas??”
Parti logo em direção a Mumbuca, a 9km dali. A estrada de cascalho é excepcionalmente boa para uma estrada secundária. Logo depois de ter avistado o que me pareceu ser pegadas de onça, parei pra conversar com o simpático casal de motoqueiros de Curitiba: Florindo e Zulmira, que fizeram este video aqui :

Video-bate-papo com Florindo e Zulmira, motoqueiros de Curitiba

Me deram várias dicas sobre a região onde já estiveram outras vezes. Cheguei bem rápido, em pouco mais de uma hora estava no Povoado Quilombola de Mumbuca que tem duas ruas paralelas em declive suave que vão até o rio, na parte mais baixa da vila.

(ENGLISH VERSION)

I knew that somewhere at the main gravel road starting in Mateiros and heading Northwest i should turn to the left to go to Mumbuca. It should be around km 30 but as my odometer (the small equipment showing the km rode) was not working, i´ve turned left much before and rode around 4km till suspecting maybe i´ve been in the wrong way. There is no signs but i believed that was the right entrance because of the road direction and also because of many wheels prints. I stopped and decide to wait for someone who could advise me instead coming immediatly back to the main road. But i forgot i was in a human desert and after one hour nobody came. So i decided to come back to the main road and ask about. As i thought the entrance to Mumbuca (that has a sign) was still dozens of km away from there.

Along the way i gave up in taking a small sand road going to “Fervedouro dos Buritis” (the sign says 7km but i was informed that is, in fact, 10km). I prefered going directly to the Mumbuca´s bifurcation where, based on the map i had, there is a “fervedouro”. I biked for around 10km (still very difficult at that moment riding in the sand-gravel road). It was a doctor crossing the sandy Jalapão with a 4×4 wheel truck going to attend to a patient. At the moment he got off the main road i continued biking for more dozens of km till the sign showing that i had to finally turn left in order to reach Mumbuca village, 10km after.

Just in the beginning of this secondary road you can find the biggest and most famous “fervedouro” of Jalapão: “Fervedouro do Firmeza” of my friend Ceiça. It was around 5pm and i crossed him in the road. He has just quit his position, asked me for the entrance fee (around US$ 5) and told me to be at home. Few hundreds meters ahead i´ve found the gate.

Na estrada / On the road

Na estrada / On the road

 

Ceiça told me, the day after, that his great grandparents came from Piauí state running from slaves owners and also from the drought of “10 years without rain”. They were enchanted by Jalapão and its biggest wealth: water. They decided to settle down then. They were wild and pillaged farms killing animals to eat. But after a while, Jalapão calm them down. By an irony of destiny “Fervedouro do Firmeza”, with so much water,  was a heritage from the ancestrals`land whom, in past, suffered a lot with the drought. Not a long time ago (maximum ten years), all “fervedouros” were hidden inside the forest. They knew them but no importance nor interest for tourism explotation was given.

It´s difficult to translate “fervedouro” to english but maybe we can say “a place that boils”. The water is not hot at all but the effect, the bubbles it is like a boiling water.

A more dense and higher forest follows the river way in the lower part of the terrain where is the “fervedouro”, a kind of oasis.
I don´t know exactly why but in my second night i didn´t feel bites of “muriçocas” (a kind of mosquito). Maybe i was already considered by them a local one. Sometimes mosquitos are really a difficulty in the region. There are many types of them. Including kind of fly don´t fly away from you so easily. By my own experience repellents are obsollet there. Fire and smoke either. A good technique, knowning they will attack mainly from 5 and 7 am and 5 and 7pm, is kepping yourself inside the tent at this period.:-)

I was lucky arriving at “Fervedouro do Firmeza” in the end of the day. Nobody there so i could relax and enjoy a lot.

“Fervedouros” are very shallow headwaters that crops into the sand of the region. There are many of them because the groundwater is shallow there. The grains of sand are “worked out” by centuries and become finer more and more. The constant presence of  the jet of water decrease the rigidity of the sandy mass. This “lack of solidity” (better, low viscosity) make the sand dismantling when you touch it. The water goes up between the grains easily with pression. The water crops few meters below he surface and pressure bubles up the water and keep your body floating.

Fervedouro do Firmeza

Fervedouro do Firmeza

 

A similar phenomena is the quick sand but in this case there is no a constant flow of water upwards.

I slept in the “fervedouro” area where there was a hammock and a shanty. Night baths and warm food made my night completly happy !!
The day after i woke up early and soon Ceiça arrived. We talked a little and, gently, he gave to me his lighter because my matches were wet and i could not light the fire the rest of my trip

He told me he was riding to the city to pay a bill. I thought: ” even in Jalapão we are not free from them”..

I left very soon heading Mumbuca 9km away from there. The gravel road is exceptionally good for a secondary road. Just in the begining  i stopped to watch what i think was a jaguar footprint and just after i crossed with two motobikers from Curitiba : Florindo and Zulmira that gave me many tips of the region they already known for few times and made this video here below (in portuguese without subtitles) :

Video-bate-papo com Florindo e Zulmira, motoqueiros de Curitiba

I arrived very fast to Quilombo Hamlet of Mumbuca that is formed by two parallels dirt streets going down slightly till the river, in the lower part of the town.

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