Jalapão de Bicicleta: Mumbuca , primeiro dia

(FOR ENGLISH VERSION SCROLL DOWN THE PAGE)

Assim que cheguei em Mumbuca avistei alguns moradores sentados embaixo de uma árvore, em frente à casa da Josi. As mulheres estavam, como sempre, fazendo artesanato com capim-dourado. Todos conversando tranquilamente. Este é o ritmo local. Cheguei e simplesmente me sentei ao lado deles. Imediatamente percebi a diferença na reação das pessoas do Jalapão: agiram naturalmente como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. E era. Aos poucos começaram a perguntar se tinha vindo de bicicleta e outras generalidades. Me trataram nos primeiros cincos minutos como se eu vivesse ali há muitos anos. Sem querer saber quem eu era e o que tinha a oferecer, logo começaram a contar sobre a vida do lugar, sobre os artesanatos que faziam e poucas horas depois D.Santinha puxou a música de boas-vindas, que cantarolam para os turistas de vez em quando. Fiquei bastante emocionado com aquela receptividade espontãnea. Em nenhum momento tentaram me vender artesanato ou outra coisa, ao contrário, só me davam: café, pequi cozido, histórias, hospitalidade.. Assim como em Mateiros, também falaram que eu poderia acampar em qualquer lugar do vilarejo sem pagar nada. É engraçado como as pessoas não tem lá o apego à propriedade, à terra que nós, em geral, temos.

Associação dos Artesãos de Mumbuca / Mumbuca´s Handcrafters Association

Associação dos Artesãos de Mumbuca / Mumbuca´s Handcrafters Association

O tempo passa lentamente em Mumbuca. Fiquei ali debaixo daquela árvore por várias horas, comendo, conversando e aprendendo muito sobre a cultura local. É engraçado porque atualmente, na cidade grande, queremos resgatar valores perdidos que estão presentes em Mumbuca e no Jalapão desde sempre. Muito se discute sobre comunidades auto-sustentáveis, onde o contato com  a natureza, o eco-extrativismo, a bioconstrução, a agricultura natural e outras práticas ancestrais junto com a energia da Natureza, nos trariam de volta sentimentos nobres do ser humano como a hospitalidade, generosidade, empatia. Tudo isso bastante degradado nos ambientes urbanos onde o dinheiro, a cobiça, a inveja, o apego, foram prevalecendo. Mumbuca é uma comunidade auto-sustentável em todos os aspectos. E ficou bastante claro pra mim que eles são assim porque tiveram a necessidade de construir, plantar, tecer, colher da natureza e fazer tudo lá mesmo, com os recursos que tinham por perto. As distâncias até as cidades mais próximas, são grandes. Não havia – e não há – dinheiro e nem asfalto. Isso é uma dádiva, na verdade. Só resta saber até quando vão conseguir preservar tudo isso. Muito interessante como conseguem manejar bem a natureza, usando para suas necessidades diversas; Plantas, solos, frutas, rios  e madeira de árvores abundantes na região com um extrativismo intuitivo e consciente.

Artesanato Capim-Dourado / Handcraft

Artesanato Capim-Dourado / Handcraft made of capim-dourado (golden grass)

O buriti é o simbolo deste extrativismo sustentável. Dele tiram a “seda” com a qual costuram as peças de artesanato de capim-dourado, fazem doces e sorvetes com a polpa, com a folha fazem telhados e usam a madeira, dura e leve, para fazer diversas coisas, até mesmo violas, como a que criou meu amigo Mauricio, de Mumbuca. Muitas outras frutas estão presentes na incrivel biodiversidade do cerrado da região: pequi, mangaba, limão galego, cajuzinho, manga… O nome do povoado de Mumbuca vem de uma pequena abelha escura, ainda encontrada na região. Curiosamente, ela faz sua colmeia a dois metros de profundidade, enterrada no chão. Na mesma terra onde a comunidade retira quse tudo que precisa. Mumbuca tem muitos personagens. Dona Laurentina é a atual matriarca da comunidade que tem nas mulheres a sua força. Com 105 anos, descendente direta do escravo Silvério que, vindo da Bahia em 1909, fundou Mumbuca. Ela conta como era a vida na comunidade há 40, 50 anos atrás. Até onde ela lembra. Várias histórias vão sugindo como a que, conta ela, colhiam um tipo de algodão local para tecer as roupas que usavam. Outra narra como era andar por trilhas até a cidade mais próxima durante seis dias quando havia um doente ou uma necessidade maior. Numa dessas viagens, D.Laurentina perdeu um dos seus 13 filhos, picado por uma cobra no caminho.

D.Laurentina , 105 anos / Mrs. Laurentina, 105 years old

D.Laurentina , 105 anos / Mrs. Laurentina, 105 years old

Praticamente todos os atuais – pouco mais de duzentos – moradores, frutos da miscigenação de índigenas e negros, são parentes entre si. A comunidade originária quilombola demonstra grande resiliência, consciência e mobilização. Há poucos anos, por exemplo, com a criação do Parque Estadual do Jalapão houve tentativa de remoção por parte do governo do Tocantins. Eles resistiram e estão lá. E vem sendo assim ao longo deste mais de um século de história. Um dos lugares onde se come bem no Jalapão fica em Mumbuca. O restaurante da Vila é simples, mas D.Laurina (filha da matriarca Laurentina) tem o tempero certo, o fogão a lenha e o marido, Sr. Adelson, faz um suco de limão galego muito refrescante. E assim, a vida passa em Mumbuca.

(ENGLISH VERSION)

Since i arrived in Mumbuca i could see few inhabitants seated under a tree in front Josi´s house. The women were making handcraft with the famous local capim-dourado (golden grass). All talking very calmly. This is the local rhythm.

I´ve just came and seated beside them. Immediately i realised the difference regarding behaviour of those people : they acted naturally as it was the most natural thing in the world a completely strange arriving by bike there, in the middle of nowhere. And it is really natural but in general we ask too many questions. Little by little i´ve started telling them generalities : if i came all the way by bike, from where i was coming, etc. They treated me in the very first minutes as i was living there for years. They were not interested to know who i was or what i could offer or buy. They started telling me the stories of the region and the community, about the handcrafts they do and later on D.Santinha, an old woman of the community started singing a very nice song of welcoming they sing for tourists every once in a while. I was very touched with that homage and warm receptivity.

Crianças de Mumbuca / Mumbuca´s children

Crianças de Mumbuca / Mumbuca´s children

They never tried to sell me stuff . On the other hand, they gave me all the time: coffee, cooked pequi (a regional fruit) and stories, many stories. As in Mateiros, they said to me i could camp in any place of the town for free. It´s amazing as they don´t have attachement for the land and properties as we do. The time pass by slowly in Mumbuca. I stayed under that tree, eating, talking, enjoying shade and stories for hours. I´ve  learnt a lot about the local culture. Funny, because actually in the big cities we would like to rescue values that are present in Mumbuca, and in Jalapão in general, since always. We discuss a lot about sustainability, ecovillages and so on. Communities where the eco-friendly extractivism, bioconstruction, natural agriculture and other practices from ancestral wisdom together with powerful energy o nature could bring back to us noble human beings behaviour and sentiments such as: hospitality, generosity,  good will, empathy. All these are very deteriorated in urban environments where money and greed prevails. Mumbuca is a sustainable community with all this. And it was crystal clear for me they are like this beacause they had the need to build and get all from there. The distances are huge. There is no asphalt and money since always. That was really a gift. The only thing to know is how long they will be able to keep all this preserved. Very interesting how they can manage a sustainable extractivism. The cerrado´s hard life is made easier with all cumulated wisdom from ancestrals. They use for all their needs plants, soils, fruits, rivers, forest wood in a intuitive, natural and conscious extractivism. Buriti tree is  a symbol of this sustainable extractivism. From buriti they get the “silk” which is used to sew capim-dourado handcrafts, they make jellies and ice-cream with the pulp, with the leaves they make roofs and wood, hard and light, is used to make different stuffs even guitars like one created by my friend Mauricio, from Mumbuca. Also many other fruits are present in local cerrado biome´s amazing biodiversity: pequi, mangaba, limão galego, cajuzinho, manga…

Extraindo a "seda do buriti" / Extracting "buriti´s silk"

Extraindo a “seda do buriti” / Extracting “buriti´s silk”

 

The name “Mumbuca” comes from a small dark bee, still present in the region, which make their hive two metters below the surface, in the ground. Mrs.Laurentina is the actual community matriarch. Women are powerful in Mumbuca. She is 105 years old and direct descendent of slave Silvério whom, coming from Bahia in 1909, founded Mumbuca. She tells how was the life there 40, 50 years ago. Since when she remembers. How they used a local cotton to weave their own clothes. Or how they had to walk for six days till next city whenever they had a sick person or one great need. In one of those trips , Mrs. Laurentina lost a son (she had 13 children) whom was bitten by a snake along the way.

D.Laurentina , 105 anos / 105 years old

D.Laurentina , 105 anos / 105 years old

Almost all actual inhabitants, a little more than two hundred, blending result of indigenous and black people, are relatives. This original quilombola community shows such a great resilience, conscience and mobilization. Few years ago, for example, Tocantins government when creating the state´s Park of Jalapão tried to move the community away that resisted and stayed there. As they do throughout more than one century of history. One place to eat well in Jalapão is the humble Restaurante da Vila in Mumbuca where Mrs. Laurina (Mrs.Laurentina daughter) has perfect seasoning, wood fire stove and her husband, Mr. Adelson, make a fantastic and refreshing lime juice. That´s the way how life goes on in Mumbuca.

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