Cicloviagem / Bike Touring – Dia 3 : Valadares – Conceição de Ibitipoca, MG – Brasil

 

O terceiro dia começou com eu tendo que resolver o primeiro problema “mecânico”. Na verdade foi num dos alforges. Um daqueles elásticos usados pra prender coisas no bagageiros agarrou na roda e, ao empurrar a bike, dentro do posto forçou a presilha de fixação do alforge no bagageiro, quebrando-a.

Levantando "acampamento"

Levantando “acampamento”

Pra consertar, tinha a abraçadeira de nailon que quebrou um galho servindo pra fixar o alforge no bagageiro. O único inconveniente era que a cada vez que eu quisesse retirar o alforge teria que cortar a abraçadeira e colocar outra pra fixar de novo. E não tinha

 

Toquei em frente. E logo depois cheguei em Lima Duarte. Terminava ali o asfalto “duro” e começavam as estradas secundarias junto à Natureza, de terra, buracos e paralelepípedo. As subidas de Lima Duarte à Ibitipoca são fortes. Na verdade são mais de 20 km alternando subidas suaves e mais fortes. Os piores trechos estão logo depois de Lima Duarte e antes de chegar à Ibitipoca onde são vários quilômetros de subida realmente muito forte. Com o peso que eu estava empurrei quase todo este ultimo trecho. E mesmo assim foi difícil.

Rota Valadares- Ibitipoca (MG)

Rota Valadares- Ibitipoca (MG)

O link da rota : http://bit.ly/2F4HlQb

Cheguei no final da tarde em Ibitipoca. E como soube que o camping dentro do Parque (que fica a 3 km depois da cidade) estava cheio, resolvi ficar num perto da cidade mesmo. Logo depois do pequeno centro, seguindo pela Estrada do Parque Ibitipoca, tem vários. Comi um pouco e rumei pra lá com a perna bamba.

Lojinha da estrada de barro

Lojinha da estrada de barro

Estava tão cansado que entrei logo no primeiro que encontrei: “Tô em Casa” (da Letícia e da Vanessa). Depois conheci outro muito bom, já mais perto da entrada do Parque, que é o do Mariano onde tem um amplo gramado com mais natureza e um bar que vende os pães, café e rosquinhas deliciosas da D. Carmem.
Percebi que o pneu estava furado, mas ia deixei o conserto pro dia seguinte. Ainda tive tempo de visitar o milharal perto do camping do Mariano onde aprendi com Sr. Antonio alguns segredos:

Sr. Antonio trabalhando na roça de milho

Sr. Antonio trabalhando na roça de milho

  • os nutrientes do solo das partes mais altas escoam pras partes mais baixas onde os pés são bem maiores e produtivos;
  • é preciso capinar em volta dos pés porque  senão o a espiga não sai (competição entre as plantas)
  • eles plantam o milho pra alimentar os animais (porcos e galinhas). Uma parte é pra fazer silagem: todo o pé do milho moído é coberto, guardado e fermentado até o período em que o pasto fica mais escasso (inverno), servindo de alimentação para o rebanho bovino;
  • disseram que o milho é hibrido e que não compram as sementes (guardam de um ano pro outro); Mas ate onde eu sei semente de milho hibrido não rebrota. Não seria milho crioulo ?

 

 

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Cicloviagem/Bike Touring – Dia 4 : Parque Estadual de Ibitipoca, MG – Brasil

Agora que tinha me recuperado um pouco de toda aquela subida do dia anterior estava muito contente de ter chegado até ali de bike. Mesmo empurrando, aqueles vários quilômetros de subida eram insanos e foi o primeiro grande desafio da viagem, dentre os muitos que, com certeza, viriam.

Neblina

Neblina

O pneu tinha furado apesar da fita anti-furo e, ao desmontar, a roda achei a causa: aquelas malhas finas de metal dos pneus dos carros que estouram que ficam pelo acostamento. Maldito asfalto !! Mas tive sorte que apesar do asfalto ter ficado mais de 20 km pra trás o pneu só veio a furar mesmo quando já estava em Ibitipoca evitando assim, que tivesse que conserta-lo durante a subida.

Construção do interior de Minas

Construção do interior de Minas

Era dia de explorar o Parque Estadual de Ibitipoca. Todos falam em três dias mas chegando cedo é possível conhecer tudo em um ou dois dias. E eu estava entrando em forma depois de dias pedalando sem parar.

Ponte de Pedra - Parque Estadual de Ibitipoca

Ponte de Pedra – Parque Estadual de Ibitipoca

Varias grutas, picos, vegetação e fauna de altitude únicas, cachoeiras de água ferruginosa cor de vinho rosé com destaque para a Ponte de Pedra, Janela do Céu, Cachoeira dos Macacos, Ducha e Pico do Pião.

Paisagem

Paisagem

A altitude acima dos 1200 m gera um clima agradável. As rochas são quartzitos esbranquiçados, antigas areias (fundo de oceanos, desertos?) que se transformaram em rochas quando foram prensadas em direção profundidades da crosta terrestre.  Depois de milhões de anos viraram rochas (arenitos).

Parque Estadual de Ibitipoca

Parque Estadual de Ibitipoca

E depois de outros milhões de anos foram submetidas a mais um fenômeno geológico: o metamorfismo, que é o aumento da pressão e temperatura em profundidade. Foram então metamorfizadas, isto é transformadas em quartzitos além de serem falhadas e dobradas. Pode-se perceber nas camadas de rochas inclinadas no parque. Nos primórdios quando elas eram sedimentares, estavam na horizontal.

Água ferruginosa

Água ferruginosa

Um aspecto interessante é que as diversas cavernas e grutas, foram esculpidas pelas águas nos quartzitos. Normalmente isto acontece com rocha calcária que se dissolve mais facilmente com água.

Aproveitando na Ducha

Aproveitando na Ducha

Mesmo sendo muito antigas (mais de 2 bilhões de anos) esta cadeia de montanhas ainda tem altitudes de mais de 1500 m !! Pode-se concluir que ela foi bem mais alta devendo ter atingido vários milhares de metros de altitude. Como hoje é o Himalaia ou os Andes, já que, depois do soerguimento atingir o seu ápice, durante todo este enorme tempo geológico posterior, só tem sofrido continuamente o desgaste do vento e das águas (erosão). O resultado é este belíssimo entalhe que forma o conjunto de rochas natural único e harmonioso do parque.

Rochas esculpidas pelas forças da Natureza

Rochas esculpidas pelas forças da Natureza

Me apressei em voltar da Janela do Céu o ponto alto da subida já que tinham me avisado que  portão do parque fechava as 18 h (o que não é verdade, é possível sair ate bem mais tarde).

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De volta à cidade, ainda deu tempo de voltar pro camping, tomar uma ducha e ir explorar a mais animada noite até agora. O centrinho de Ibitipoca alguns dias antes do reveillon com feirinha hippie, música ao vivo na rua, pão de queijo canastra e uma deliciosa pizza me fizeram relaxar e esquecer completamente as “dificuldades” até então. E recuperar forças pra continuar no outro dia bem cedo.

 

 

Cicloviagem / Bike Touring – Dia 5 : Conceição de Ibitipoca – Santana do Garambéu, MG – Brasil

Me despedindo de Ibitipoca passei pela Igrejinha mais antiga (e que leva o nome) da cidade no alto do morro e segui pela estrada que me levaria à Santa do Garambéu. Neste trecho comecei a enfrentar o que seria o cotidiano da viagem a partir dali: estradas de barro e lama em péssimas condições devido às fortes chuvas que caíam varias vezes ao dia durante as ultimas semanas.

Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição de Ibitipoca

Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição de Ibitipoca

Este foi um trecho especialmente difícil. E com a corrente, e rodas cobertas com uma crosta de lama a quilometragem caiu bastante: se estava em 50-60 km por dia , passou a ser 20-30 km/dia. Sem problemas. Já que estava claro que, pra mim, o mais importante dessa viagem e de qualquer outra no cicloturismo era aproveitar e curtir o percurso, cada momento, e não a velocidade, a distancia percorrida ou a performance.

Por isso também, sem me preocupar com a distancia ou o tempo, fazia questão de parar a cada vez que avistava uma flora endêmica, uma cena original ou um personagem local que me chamava atenção e que se mostrasse aberto em trocar algumas palavras.
Foi num desses momentos que cruzei com um carro de boi com quatro animais que parecia ter vindo diretamente do seculo passado. Ele carregava vários latões de leite e era tocado por um vaqueiro que ia a pé emitindo sons que pareciam controlar os bois naquela estrada difícil. Peguei indicação com o vaqueiro qual era a melhor rota até Santana do Garambéu e continuei.

Carro de Boi

Carro de Boi

Nessa altura tendo atravessado tantos quilômetros de barro e poças de lama, não conseguia enxergar nem mesmo através da garrafa transparente de água. Interessante é que mesmo fechada o barro conseguia entrar e ao beber a água sentia alguns grãos de areia nos dentes. Deixei aquela garrafa que ficava na caramanhola de lado e comecei a usar a que ficava (protegida) dentro do alforge.

muita lama

muita lama

Mais à frente cruzei com um grupo de cavaleiros que estava fazendo uma espécie de cavalgada tropeira que acontecia entre amigos todos anos. Durante 3 ou quatro dias eles andavam de cavalo de dia passando por fazendas onde se alimentavam e dormiam. Alguns, que não tinham cavalo, iam de carro ou moto. Estavam com dificuldade de avançar num ponto porque os carros atolavam na estrada. Num ponto de subida de lama forte tive que parar ate que conseguissem tirar um carro atolado e eu pudesse passar empurrando a bicicleta morro acima. Impossível pedalar ali.

Cavalgada Tropeira finalizando em Santana do Garambéu

Cavalgada Tropeira finalizando em Santana do Garambéu

No final do dia cheguei à Santana do Garambéu. estava tão esgotado que resolvi ficar, pela primeira vez, numa pousada. A unica mais acessível é a que fica em cima do bar do Zé Manoel. Aliás que personagem!! Vale a pena conhecê-lo. Você pode encontrá-lo ao lado da mesa de sinuca fica na parte de trás do bar onde ele vai vencendo um a um os adversários, que parecem não acreditar nos lances que assistem. Quando passar por lá, tente ganhar uma partida de sinuca dele pelo menos.

O link da rota no Google Maps: http://bit.ly/2F3nKN1

 

Ibitipoca- Santana do Garambéu

Ibitipoca- Santana do Garambéu

Foi em Santana do Garambéu também que tive a exata noção de como vivo numa cidade cara. Sai à noite pra comer um sanduíche num daqueles trailers de lanches. O cara vendia hambúrgueres variados a R$ 6,00. O pão de hambúrguer era do grande. Pedi um mas ao invés da carne pedi com queijo, ovo, tomate e alface. Ele ainda sugeriu, batata palha. ervilha e milho. Custou inacreditáveis R$ 3,00 !!

 

Cicloviagem / Bike Touring – Dia 6 : Santana do Garambéu – Andrelândia, MG – Brasil

Na saída de Santana do Garambéu, fiz a primeira modificação no roteiro. E foi absolutamente por acaso. Meu destino seria Madre Deus de Minas mas quando estava saindo da cidade vi a placa : Andrelândia, que seria um dos próximos destinos. Parei pra perguntar e um grupo de moradores foi categórico: “Vá pra Andrelândia direto. O caminho é mas plano e bonito, e a estrada pra Madre Deus está muito ruim depois das chuvas”.
O trajeto: http://bit.ly/2Fes1R6

Longas retas, subidas e descidas na estrada até Andrelândia

Longas retas, subidas e descidas na estrada até Andrelândia

 

Como estava atrasado na programação da viagem,  decidi seguir os conselhos e ir direto pra Andrelândia. Realmente a estrada era bem mais plana, principalmente se comparada ao trecho anterior. E estava em boas condições, com a terra batida. Parecia ser mais arenosa também e, por isso, a água infiltrava melhor e não havia acumulação de lama.

Paisagem do Sul de Minas: "Mar de Morros"

Paisagem do Sul de Minas: “Mar de Morros”

Apesar disso as tempestades de chuva e vento continuavam. Várias vezes ao dia caíam impiedosamente. Nestes momentos colocava uma capa impermeável. Quando a chuva parava tirava a capa e guardava já que começava a fazer calor e eu suava muito à medida que pedalava. Este tira e põe acontecida varias vezes ao dia. As vezes com intervalos de poucos minutos.

Minas e sua fé e religiosidade

Minas e sua fé e religiosidade

Naquele momento estava ficando sem freios. Quando me aproximei de Andrelândia tive que descer e ir andando segurando a bike ladeira à baixo porque ela já não parava. Mais um desafio mecânico por dia seguinte: conseguir regular os freios e fazer com que eles voltassem a funcionar. Mas isso era importante por que nas áreas planas e descidas a pedalada rendia mais do que nas subidas, onde muitas vezes tinha até que empurrar.

Tempo fechado

Tempo fechado

Andrelândia, cidadezinha histórica em plena Estrada Real, cheia de casas, que pareciam desenhadas, do período colonial quando servia de rota pros viajantes do ciclo do ouro.
Era dia 31/12.  A cidade lotada pra missa e pra festa de revéillon que é famosa na região e até em outros estados (encontrei uma garotada do Rio de Janeiro).

Uma das muitas construções históricas de Andrelândia, MG

Uma das muitas construções históricas de Andrelândia, MG

Os funcionários da recepção de um dos únicos hotéis da cidade, talvez percebendo minha vulnerabilidade de viajante de bicicleta, foram muito atenciosos comigo e me deram a ultima vaga disponível. O supermercado ainda estava aberto me reabasteci de água que ali custava R$ 2,15, bem diferentes dos R$ 5,00/litro que já havia pago em alguns trechos.

Andrelândia, MG

Andrelândia, MG

Lavei e coloquei toda roupa pra secar, já que estava encharcada e enlameada. Depois fui  pra praça principal aproveitar um pouco da festa de revéillon lotada. Depois de pouco tempo lá percebi o que interessava de verdade era dormir cedo e poder descansar já que no outro dia tinha mais estrada pela frente.

 

 

Cicloviagem / Bike Touring – Dia 7 : Andrelândia – São Vicente de Minas , MG – Brasil

Depois de regular o freio na pracinha central de Andrelândia, parti por volta de 11 h da manhã. Como já era tarde optei em pegar o asfalto da BR-494 em direção a São Vicente de Minas, que ficava  a pouco mais de 30 km, ao invés de seguir o que estava programado: ir pra Serranos, o que seria três vezes mais distante, e pela terra.

Deixando Andrelândia (ao fundo)

Deixando Andrelândia (ao fundo)

Apesar de ser estrada de asfalto em mão dupla, o trafego esteve muito tranquilo durante todo o trajeto já que era feriado, dia 1º de janeiro de 2018. Foram poucas subidas também. O único imprevisto foi uma arvore caída na estrada, que de longe pensei que fosse um acidente envolvendo os dois carros da policia que estavam parados para removê-la.
O dia de sol fez a paisagem verde ficar incrivelmente linda. Era somente o segundo dia (o primeiro junto à Natureza) que fazia sol.

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Com um trajeto tão tranquilo (asfalto e sem chuva) Cheguei bem cedo à São Vicente de Minas. Parei logo num bar na entrada da cidade que achei bem antigo e acolhedor. Era o bar do Sr. Chico, um senhor de mais de 80 anos que, apesar de traços asiáticos, acho que foi imigrante português da Ilha de Faial, nos Açores já que, pregado na parede do seu bar tinha uma arvores genealógica desde os primeiros imigrantes desta Ilha pro Sul de Minas.

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Ali conheci alguns moradores locais que ficaram espantados ao saber que estava vindo de tão longe de bicicleta. Assim como a Vanessa, uma gaucha que mora em São Paulo e que estava de passagem. Ela dizia que acha interessante conhecer pessoas que tem esse tipo de projeto na cabeça.
Parou também o Sr. José. ciclista (de capacete e tudo) com uma mountain bike com motor adaptado 🙂

Construções históricas presentes em toda Estrada Real

Construções históricas presentes em toda Estrada Real

Provei um Guaraná Mantiqueira, marca pequena do interior de MG segue no mercado resistindo e que me acompanhou pelo resto da viagem no Estado. Em Santana do Garambéu tinha provado outra marca de guaraná, ainda menor e que nunca tinha visto: o Príncipe Negro.

A rota do trecho é essa: http://bit.ly/2HS8TXv

Andrelandia - Sao Vicente de Minas

Andrelandia – Sao Vicente de Minas

Chegando ao centro, pude aproveitar  e curtir os moradores locais passeando pela pracinha principal no fim de tarde preguiçoso do feriado. Fiquei aproveitando um dos raros momentos de wi-fi sentado num dos animados bares da praça.

 

Trailer de lanches em São Vicente de Minas

Trailer de lanches em São Vicente de Minas

 

Duas crianças me chamaram atenção. O Rafael, um garoto ciclista que adaptou um copo de plastico da roda de trás e conforme pedalava o copo gerava um som motorizado na bicicleta.
A outra foi a menina Sofia que com seus 10-12 anos estava sentada num banco da praça com uma mesinha vendendo “perfumes” que ela mesma fazia. Em copos de plastico cheios de água ela jogava pétalas de uma determinada flor e e elas perfumavam incrivelmente a água do copo.

Com estas inspirações terminava meu sétimo dia de viagem no calmo e ensolarado fim de tarde de São Vicente de Minas.

Cicloviagem / Bike Touring – Dia 8 : São Vicente de Minas – Carvalhos , MG – Brasil

Como havia pedalado só 30 km no dia anterior, decidi ir um pouco mais alem. Fiz em torno de 50 km, passando por Seritinga e Serranos, antes de finalmente chegar em Carvalhos. Até porque no final do dia tive que sair novamente da estrada principal. A cidade de Carvalhos fica há alguns quilômetros do trevo rodoviário principal. Mas vale à pena conhecer. Um dos trechos mais bonitos até agora.

Paisagem peculiar

Paisagem peculiar

Choveu pouco. Alás, se por um lado estava tendo que desbravar estradas completamente enlameadas com pedras, buracos e com muita chuva por outro lado, isso foi bom porque a temperatura estava muito agradável, sem o forte calor habitual no verão. Imagino o que seria pedalar o dia todo com sol escaldante.

Estrada que leva à Carvalhos

Estrada que leva à Carvalhos

Desde que entrei em Minas a paisagem verde era quase sempre de pasto. Alás tudo no Sul de Minas gira em torno da vaca e de outros animais, como o porco. A vaca exige muito espaço e pasto.  Um criador que conheci na viagem, e que tem 250 cabeças de gado, me disseque precisava ter 400 hectares pra ter pasto suficiente no inverno quando chove pouco. Talvez seja uma das razões porque no Sul de Minas não se encontre verduras, legumes e frutas disponíveis nas refeições e lanches.

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Tudo é pra o animal, criações e rebanhos : o milho, por exemplo, é exclusivamente plantando pra alimentar os animais. Os rebanhos são pra carne e também grande parte pra produzir leite pra fabricação de laticínios.

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Encontrei alguns ciclistas locais voltando do trabalho em suas barra-fortes e me chamou a atenção que assim que a subida começa eles descem e imediatamente começam a empurrar as magrelas.

Descansando e fazendo selfie

Descansando e fazendo selfie

Chegando na cidade me esbaldei na padaria. É incrivel mas todas as cidades de Minas que passei, em qualquer boteco ou padaria, o pão de queijo é muito bom. Muito melhor do que comemos no Rio de Janeiro. E grande. Nesta padaria haviam variações dele, e ainda biscoitos, bolos, rosquinhas, etc. Tudo acompanhado com um café com leite com direito à nata. Há tempos que não tomava um assim.

Sao Vicente de Minas- Carvalhos

São Vicente de Minas- Carvalhos

O trecho: http://bit.ly/2HVyVJz

Me abasteci também de água mineral para o dia seguinte, já que o supermercado ainda estava aberto e pude encontrar a R$ 2,30/litro. Água mineral pro cicloturista é um dos itens mais importantes que nunca pode faltar.

Antiga estação de trem de Carvalhos

Antiga estação de trem de Carvalhos

No restinho de tarde aproveitei também pra localizar no GPS aonde era a saída da cidade, em direção à Liberdade, meu próximo destino do dia seguinte. E conversando com uns senhores na pracinha me aconselharam a, ao invés de ir pela estrada de terra normal, pegar a via alternativa que era a antiga linha do trem. Me indicaram por onde deveria ir pra encontrá-la-la à uns 3 km da cidade.

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Fiquei muito satisfeito porque há algumas semanas tinha acompanhado um debate num grupo de cicloturismo sobre o aproveitamento das antigas estradas de ferro pra trilhas de cicloviagem. No dia seguinte ia ter a oportunidade de experimentar como seria viajar numa dessas. E ainda, admirando a bela paisagem de Minas.

 

Cicloviagem / Bike Touring – Dia 9 (parte 1): Carvalhos – Liberdade , MG – Brasil

Indo pra Liberdade, peguei a direção que tinham me indicado pra sair da cidade de Carvalhos,  e que confirmei pelo GPS.

Pedalei alguns poucos quilômetros e encontrei com Sr. Hermes, criador de vaca leiteira. Ele estava descarregando dois tonéis de leite que eram levados por seu cavalo como se fossem os dois alforges na bicicleta.

 

Fazenda antiga, provavelmente anos 70

Fazenda antiga, provavelmente anos 70

 

Deixava na beira da estrada pro caminhão da industria de laticínios pegar. Disse que, acordava cedo e fazia isso todos os dias. O laticínios pagava R$ 0,90/litro de leite (janeiro 2018) e ali estava com 60 litros, a produção diária das seis vacas que tinha. Quando é inverno e a oferta de leite cai, o preço sobe mas não muito. No máximo, pra R$1,20/litro.

Nos últimos anos tem se desenvolvido nesta região a fabricação de queijos artesanais de qualidade.  Como já disse, quase toda cidade tem pequenas indústria de laticínios que estão produzindo não só o queijo Minas Padrão e manteiga mas também queijos curados como o Canastra e muitos outros inclusive de inspiração européia como o Gorgonzola, Gouda, etc.

 

É difícil pro cicloviajante poder comprar já que em geral só vendem inteiros ou metades. O que é muito pra quem tá sozinho e de bike e acampando, portanto sem refrigeração.

O que ele ganha com o leite não é muito depois me falaram que famílias como a dele moravam no sítio e produziam praticamente tudo que precisavam. Então, apesar do pouco faturamento eles não gastavam com nada!! E vão guardando o dinheiro…

Perguntei à Sr. Hermes se ia chover. Ele olhou pro céu negro carregado e disse que achava que não porque estava frio e as nuvens pareciam estar “esparramando”.

Estrada da linha do trem

Estrada da linha do trem

Confirmei o caminho da “linha” com ele e parti. A antiga estrada de ferro que hoje aterrada virou uma estradinha local é ótima pra cicloturismo na natureza apesar das pedras e buracos. É muito tranquila e praticamente não tem trafego, Além disso as subidas são suaves. Fiquei pensando que isto talvez seja pelo fato dos trens que passavam na época por ali não tinham muita potencia então não poderiam enfrentar subidas ingrimes como são as rodovias atuais, feitas pros carros e caminhões modernos e potentes. Estas antigas linhas de trem praticamente seguem as curvas de nível, vão pelas beiras dos rios e fundos dos vales na maior parte do trajeto.

Antiga estação de Silviano Brandão

Antiga estação de Silviano Brandão

Os trilhos estão completamente encobertos. Os únicos vestígios que vemos das antigas estradas de ferros, são as antigas estações quase abandonadas, como a de Silviano Brandão que passei, algumas poucas casas em vilas que deviam servir de moradia para os antigos funcionários. Além dos cortes estreitos nos morros e pedras por onde as estradas passam.

Carvalhos - Liberdade

Carvalhos – Liberdade

Como em geral estas estradinhas não são indicadas o único meio de acessá-las é conversando com os moradores e procurando saber onde estão exatamente.

A rota do trecho: http://bit.ly/2FeosLv

Depois muitos quilômetros de subidas e descidas suaves, uma viagem tranquila sem trafego algum e com lindas paisagens cheguei no asfalto, na MG-814, onde pega-se à direita, subindo pra mais 1 km até chegar em Liberdade.

Cheguei por volta de 13 h e tomei logo um caldo de cana de um senhor com o carrinho parado na rua.

Foi lá também que visitei uma queijaria no centro com todos os queijos artesanais da região,  mas como disse a maioria dos queijos são vendidos inteiros então é difícil pra um cicloviajante levar. Mas fui num supermercado e o mesmo queijo parmesão poderia ser vendido em pedaços menores. Comprei umas 150 g, fiz um sanduíche e embrulhei o pouco que sobrou pra levar.
Como ainda era cedo, parti em direção à Taboão.

Cicloviagem / Bike Touring – Dia 9 (parte 2): Liberdade – Taboão , MG – Brasil

Saindo de Liberdade, resolvi continuar a pedalar pelo resto da tarde com objetivo de chegar em Bom Jardim de Minas e depois, Taboão. Até Bom Jardim de Minas fui pela mesma estrada da linha do trem. Paisagem linda e relevo suave.
Nos últimos dois dias o esforço estava sendo um pouco menor em função do fato que essas estradas da linha do trem seguem praticamente as curvas de nivel.

Saindo de Liberdade

Saindo de Liberdade

 

O esforço da viagem como um todo é ficar longas horas pedalando em terreno irregular, subindo ladeiras de vários quilômetros, com concentração da mente no corpo, nos músculos que eram exigidos durante esses longos períodos de resistência e força, e na estrada já que o cicloviajante está permanentemente decidindo qual o melhor caminho no segundo seguinte ajeitando a posição do guidão, tomando a melhor direção que depende de como a estrada se apresenta à sua frente (buracos, pedras, poças).

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Este estado de esforço e concentração durante horas seguidas produz um fenômeno físico de liberação de hormônios como a endorfina e uma espécie de estado mental de sublimação. Um “pequeno nirvana”. Não sei se é exatamente esta a palavra. Só mesmo quem passa pela situação pode entender. Nada demais, mas o fato é que, pelo menos aconteceu comigo, você começa a fazer as coisas acontecerem, tomar decisões rápidas e certeiras, ter visão clara, parece que tudo no “universo conspira a seu favor”.

 

A gente começa também a desenvolver a equanimidade. Sim, senti o mesmo realizando retiros longos de meditação, onde justamente trabalhamos durante horas o esforço e a concentração.

Ninho

Ninho

 

As dificuldades passam a ser encaradas de outra maneira. Mais suave. Você desenvolve tolerância, paciência, sabe que aquilo (qualquer coisa que acontece) não é nada, vai passar. Talvez seja o fato de você estar passando por tanta dificuldade na viagem, a começar pelo esforço e a resistência, e vem superando um quilômetro após o outro.

Mais à frente vou contar algumas coisas impressionantes que aconteceram comigo que, acho, estavam relacionadas à este fenômeno empoderador.

Bom Jardim de Minas é uma cidade um pouquinho maior e tive um pouco mais de dificuldade de encontrar a estrada da linha do trem que leva à Taboão. Estava marcada no GPS que ao que parece através, do app GPX Viewer, busca a melhor rota pro ciclista, tendo em vista a menor distancia e declive. Mas não tinha muita pratica em como localizar no mundo real o que indicava o GPS (foi minha primeira viagem com ele). E também só ligava ele no momento de bifurcações pra economizar a bateria do celular.

A rota do trecho: http://bit.ly/2G4fIoy

Liberdade - Tabuão

Ao perguntar aos moradores, estes raramente vão indicar uma estrada de terra de pouco movimento e sim, sempre aquela estrada de asfalto por onde os carros vão. O que nem sempre é a melhor opção pro ciclista.
Como já eram 16 h, e depois de quase uma hora procurando, decidi pegar, nesta etapa final do dia, os quase 20 km de asfalto (BR 267, veja a rota no google maps acima), que faltavam pra chegar em Taboão. Não preciso nem dizer de como me arrependi, não é ? Subidas fortes, barulho, poluição. Que contraste !!

Taboão

Taboão

Cheguei a pequenina Taboão no fim da tarde. Tinha pedalado uma longa distancia e tava bem cansado. Até ali, estava confirmada a previsão do Sr. Hermes que, lá na saída de Carvalhos de manhã cedinho, previu que não iria chover apesar do céu carregado.

Em Taboão não tinha pousada nem restaurante. E logo depois começou uma chuva forte. Temporal. Como não sabia onde ia ficar pedi a um senhor que estava na varanda da sua casa conversando comigo se ele podia carregar o meu celular até no outro dia quando passaria pra buscar. A resposta foi NÃO. Talvez pela idade dele e por estar assustado com toda violência que a TV se ocupa em mostrar a cada dia .

Debaixo daquele temporal procurei um lugar pra acampar e achei um quase perfeito. O campo de futebol na saída da cidade !! Os vestiários estavam abertos e tinha água e luz. Ali, pude recarregar o celular, tomar banho, cozinhar e dormir. E de graça !! Tudo isso bem protegido da tempestade que caía lá fora.

Cicloviagem / Bike Touring – Dia 10 : Taboão – Funil , MG – Brasil

Amanheceu e a chuva não parou. Diminuiu, mas não parou. Nesse ponto da viagem já estava acostumado a pedalar debaixo de chuva. Não era mais um problema. Tinha decidido, lá atrás, que não ia esperar passar. Pra isso que serviam os alforges impermeáveis. Ainda bem porque, ao contrario, teria levado meses pra concluir já que tinha chovido praticamente todos os dias até agora. Arrumei tudo devagar e me despedi do vestiário feminino do Complexo Esportivo Municipal de Taboão que tinha me acolhido naquela noite de muita chuva.

As longas e difíceis subidas e descidas tinham voltado neste trecho

As longas e difíceis subidas e descidas tinham voltado neste trecho

A estrada de Taboão até Funil é uma grande serra a ser vencida. Tinha acabado a moleza das antigas linhas de trem. Agora eram longas subidas e descidas com lama.
Algo que está sempre presente no dia a dia do cicloviajante, pelos vilarejos que a gente passa, são as corridas de cachorros. As vezes são vários que disparam atrás de você.

Araucárias por todo o trajeto com altitude acima de 1000 m

Araucárias por todo o trajeto com altitude acima de 1000 m

Não sabia se olhava pra eles e tentava afasta-los ou se olhava pra frente. Eram os momentos que pedalava mais rápido. Sorte quando não era um trecho com subida. Aconteceu muitas vezes durante a viagem.

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Mas um outro “perigo” que o cicloviajante corre são os rebanhos no caminho. Encontrei vários mas dessa vez pressenti que dentre as vacas tinha um boi que começou a me olhar de longe e mugir diferente. Aquela coisa que havia falado sobre estar num estado mental especial ? Tive a intuição que teria problema se tentasse passar por ali. O sitio ficava mais abaixo. Gritei pelo dono por uns 10 minutos até que apareceu alguém pelo outro lado e expliquei a situação. Ele disse que realmente aquele touro era meio “besteiro” e que eu tinha feito bem de não passar. Aí ele começou a gritar e jogou alguns galhos e pedras ate que o bicho desceu um pouco o barranco que beirava a estrada. Eu agradeci e passei rápido antes que ele voltasse.

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Cheguei bem cedo a Funil, por volta de meio dia. Mas chovia muito então decidi parar pra tentar me secar um pouco e comer algo. Mas alguma coisa aconteceu. Pensei que tivesse chegado ao Rio de Janeiro porque, sem explicação os preços de Funil são muito mais caros do que vinha pagando até então. Perguntei numa pousada e o rapaz informou que custava R$ 120/noite. Até então o mais caro que havia pago por pousada foi em Santana do Garambéu, R$ 40.

Tabuão - Funil
O trecho no Google Maps: http://bit.ly/2I8RKce

Do nada os preços triplicaram. A comida também era mais cara. Tem o ótimo restaurante caseiro da D. Aparecida, uma referencia na cidade com tudo muito gostoso. Comida mineira, pastéis, bolos. Mas o preço por ali é em torno de R$ 20 a refeição. Acredito que tenha virado um lugar turístico – devido aos vários atrativos naturais – procurado por cariocas e paulistas pra ser tão caro assim. Sempre acontece assim, quando a pequena cidade é muito visitada por turistas ricos das capitais. Mas nem Ibitipoca é tão caro quanto Funil.
Decidi comer na pensão da D. Aparecida e esperar a chuva parar um pouco, o que não aconteceu. Como estava realmente cansado fui ficando até que dormi por ali.

Cicloviagem / Bike Touring – Dia 11 : Funil – Três Cruzes – Rio Preto (MG) / Parapeúna (RJ) – Brasil

Eu posso dizer que nessa viagem realmente eu vivenciei o que é pedalar na natureza. E nas piores condições de clima e terreno. Com chuva, foram dias seguidos. Muita água, poças onde não se tem a exata noção do fundo, pedras, lama. E mais chuva. Como disse, pelo menos pedalei numa temperatura agradável e apesar de ser verão, raramente peguei sol escaldante.

Capelas estão sempre presentes à beira das pequenas estradas do interior

Capelas nas fazendas e à beira das pequenas estradas do interior

O bagageiro continuou dando problemas. Foi outra constante na viagem. Acredito que devido ao peso dos alforges, e também porque nessas estradas de terra, eles trepidam muito o que, alem de forçar as hastes de alumínio, vai soltando o parafuso que fixa o bagageiro no eixo traseiro.

Sempre muita lama e bagageiro com problemas

Sempre muita lama e bagageiro com problemas

No trecho Funil-Três Cruzes aconteceu mais um fenômeno que me fez pensar sobre os efeitos que este tipo de viagem com tanto esforço físico e concentração pode ter na tua mente-corpo. Eu pedalava a maior parte do dia em estradas desertas, com poucos carros passando, raramente cruzava por pessoas e passava por um ou dois vilarejos com poucas casas a cada dia.

Banho de rio perto de Três Cruzes, MG

Banho de rio perto de Três Cruzes, MG

E foi justamente a poucas centenas de metros do vilarejo de Três Cruzes que o bagageiro soltou de novo. Apesar das poucas casas habitadas havia um grupo de amigos passando o feriado de fim de ano numa delas. Era a casa do Titinho, o pedreiro local.

Sítio autossustentável - Três Cruzes, MG

Sítio autossustentável – Três Cruzes, MG

Parei lá e me ajudaram a retirar os alforges pra apertar o parafuso. Segui viagem mas, poucos quilômetros depois, o bagageiro estava mexendo bastante de novo. Analisei e percebi que a haste que dá suporte ao bagageiro havia quebrado. Bem, pensei que realmente a viagem tinha chegado ao fim já que daquela maneira não teria como pedalar já que o bagageiro estava tocando no pneu. E não tinha como carregar os dois alforges de outra maneira.
Voltei empurrando a bici pensando que ia ter que pedir uma carona pros rapazes (eles eram de Valença), pra poder sair dali.

A rota deste trecho:   http://bit.ly/2oXAXQL

Funil - Rio Preto (MG)

Como tinha pedido a um morador local que passou de carro para que avisasse ao grupo que me esperasse. Poucos minutos depois, quando estava no meio do caminho, já encontrei com o Luis Artur (um dos caras do grupo) vindo ao meu encontro.

Encontrei ajuda assim que o bagageiro quebrou

Encontrei ajuda assim que o bagageiro quebrou

 

Ele me disse que era motoqueiro na origem, tinha feito vários enduros de regularidade e que ia tentar dar um jeito pra que eu pudesse continuar. Retiramos tudo de novo e Luis Artur que havia encontrado um pedaço de vergalhão e um arame, com toda calma, simplesmente “soldou” o bagageiro fazendo uma amarração com o arame e vergalhão dando suporte.

Levamos umas duas horas consertando e depois ainda almocei com eles. Fiquei muito grato à todos. Foi realmente incrível que tivesse quebrado exatamente ali naquele ponto da viagem onde estava um cara que se colocou disponível e foi capaz de fazer um conserto tão difícil. De verdade acredito que foi meu estado mental que tornou isso possível pelo fato de, como disse, estava viajando por lugares praticamente desertos e sem nenhuma estrutura. Mas vocês poderão entender melhor por outras situações que aconteceram mais adiante na viagem.

Fé e religiosidade muito presente no interior de Minas Gerais

Fé e religiosidade muito presente no interior de Minas Gerais

Continuei viagem debaixo de muita chuva e, seguindo as dicas dos amigos de Três Cruzes (que costumam viajar de carro), acabei dando uma grande volta (como podem ver no mapa acima) pra chegar em Rio Preto. Estrada de terra até Conceição do Monte Verde. E a partir dali, asfalto até Rio Preto onde cheguei com o conserto do bagageiro resistindo bem.

Cheguei, com certeza, debaixo do maior temporal (em intensidade e volume d´água, de toda a viagem até agora. Eu e a chuva eramos a mesma pessoa. Meu corpo, que tinha 75%, passou a ter 100% de água naquele fim de tarde.

Rio Preto era a última cidade de Minas Gerais, do outro lado do rio já estava o Estado do Rio de Janeiro, a cidade de Parapeúna.